sexta-feira, 11 de maio de 2018

Frankenweenie (2012)

É um filme bobo, mas... bonito.

E é esta a sua principal qualidade.

Talvez estejamos muito necessitados de algo assim nos dias de hoje: uma experiência cinematográfica que seja mais “plástica” que “política”.

A história do estranho garoto nerd e solitário que quer ressuscitar o seu cãozinho é de um apelo universal indiscutível. O drama é palpável; nos identificamos de imediato.

Talvez, no fim, a mensagem que se depreende do filme é o tipo de consequência que se pode ter ao trazer os mortos de volta à vida... Ou o poder do amor, que é muito a cara da Disney...

Mas não, não quero problematizar.

O delicado stop-motion em branco e preto vale apenas por aquilo que é – um entretenimento prazeroso como um parque de diversões em um dia ensolarado de férias. Sem fins nem teses, sem metáforas ocultas, sem links mentais ou fetichismos políticos.

Exceto servir de gatilho à nostalgia pura e simples, à memória afetiva de todos que cresceram consumindo imagens e mundos da cultura pop. A homenagem “fofa” aos monstros da Universal da era clássica explicita bem isso.

Lembro que, há alguns anos, certos blogueiros e cinéfilos consideravam Tim Burton uma espécie de mestre do “surrealismo pop”. Um rótulo vazio, sem sombras de dúvida, porque tenta dar alguma “respeitabilidade” ao seu ofício de grande comunicador de massa, como se isso, por si só, não pudesse ser digno de respeito.

A sua carreira é irregular, tem altos e baixos. Na corda-bamba, Tim Burton tenta satisfazer as exigências feitas à sua arte e as expectativas geradas pelo seu produto.

Percebo que, nos últimos trabalhos, ele tem mantido certa constância, bem como se dedicado ao artesanato da narrativa de um jeitão mais convencional, bem caro ao “cinemão americano”.

Tenho Tim Burton em alta conta. Para mim, ele é um tipo bem-acabado daquilo que chamo de “artesão das formas”: alguém com voz própria, identidade visual inconfundível e totalmente comprometido com o indústria de entretenimento.

E Frankenweenie é superfeliz nesse aspecto. Belo, redondo, bem conduzido e totalmente modesto – mas sincero – nas suas pretensões, digamos, mais artísticas.

AVALIAÇÃO: MUITO BOM

domingo, 21 de janeiro de 2018

Paulo e Estêvão (1941)

A maior injustiça é rotular Paulo e Estêvão de "romance espírita"

Chico Xavier — ou Emmanuel — é realmente um escritor extraordinário. Tudo bem que o livro é escrito com mão pesadíssima, com um beletrismo que torna a prosa muito envelhecida e gordurosa.

"Outrossim", "assaz", "báratro" e "imbele" foram algumas das centenas de palavras que me obrigaram peregrinar em diversos dicionários pesadões.

A dicção arcaizante e dura surpreendeu muitas vezes com momentos de poesia e luminosidade.

O texto funcionaria melhor se eliminasse boa parte dos adjetivos, dos advérbios, das palavras pomposas, se cortasse muitas repetições. Já entendi que muitos choram, que a Igreja Primitiva trabalha com amor, que muitos ficam "vivamente impressionados" quando Paulo prega, etc., etc.

O Apóstolo Paulo que encontro neste livro é o mesmo que sempre imaginei nas leituras bíblicas da adolescência — um pensador rigoroso, de uma franqueza quase rude, um raciocínio tortuoso às vezes, uma fibra moral indestrutível e uma coerência lógica de pedra...

É um romance, por mais que o espírito Emmanuel insista que ele seja um relato apenas. O artístico se sobressai ao histórico e ao religioso, mesmo que essa frase seja passível de controvérsia.

Os personagens podem lá ser muito lineares e previsíveis, mas caminham vívidos nas páginas. O olhar lírico e parcial do narrador sempre intruso — que ama mais declarar as ações do que mostrar — engessa tudo num único ponto de vista...

Todavia, cada cena, cada momento, é tão plausível e verossímil, que concluo: se isso não for verdade, é muito bem inventado.

A obra tem alguns problemas de ritmo. A primeira parte do livro é muito empolgante, mas a segunda parte começa se arrastando.

A conversão de Saulo se torna em algo anticlimático, como se de repente ele virasse apenas uma presença burocrática na história. No entanto, nas cem últimas páginas o texto ganha energia, há movimento, a leitura prende o leitor, céus, você está emocionado. À essa altura, a mão pesada do narrador já não é um problema, as ressalvas aqui relatadas perdem importância. A história brilha e cresce. Tudo flui.

Se o livro tem uma inequívoca pretensão evangelizadora, se certos detalhes familiares à doutrina espírita seja salpicada com discrição aqui e acolá durante a leitura, o que se sobressai é uma belíssima história de amor, de fé, de sacrifício e de amizade.

Isso não é pouco.

(MUITO BOM)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Kingsman – Serviço Secreto (2014)

Cinema é imagem, mas também é movimento. Essa definição praticamente tautológica da sétima arte me martelou a mente do começo ao fim do deste filme.

Aliás, movimento é algo que também está presente nos filmes “parados”, contemplativos, não-narrativos. O que mais se nota em Kingsman é ritmo.

A trama é ágil, é divertida. A direção hiperacelerada e nervosa de Vaughn não deixa espaço para o tédio. Tudo acontece de acordo, cada coisa acontece no momento certo, cada cena, cada piada, tudo muito orgânico e fluído. As alternâncias entre diálogos e cenas de ação, ainda que bruscas, formam por si só um deleite sensacional.

O filme extrapola a “elegante” comicidade existente nos primeiros filmes do 007. Para os nostálgicos, Kingsman funciona como um exagero respeitoso daquela componente que o Bond de Craig procura – sistematicamente – abdicar. O humor.

Kingsman vai além. Reverencia Bond com total irreverência, sacaneia o mito reconhecendo – e reafirmando – seu gigantismo incontornável na cultura pop. Não esconde a tietagem, faz isso com competência, mesmo não se levando a sério momento algum.

Kingsman é entretenimento estiloso feito com toque de gênio e frescor, é cinema pipoca de altíssimo nível, por mais que essas afirmações pareçam absurdas.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Pink Flamingos (1972)

Destoando completamente do espírito natalino, eis aí um filme irreverente de avaliação impossível.

Confesso que assistir até o final esse “exercício do mau gosto” foi como testar os próprios limites. Sim, porque Pink Flamingos, de John Waters, não é um filme para qualquer um. É talvez um dos filmes mais bizarros e repulsivos que já vi na vida. Mais até que Possessão (1981).

Tudo nele é tosco, chulo e precário. Tão tosco e nauseabundo que chega a ser engraçado, pastelão à sua maneira. Um circo escatológico.

E é um filme que zomba dos padrões e critérios, daí sendo difícil enquadrá-lo numa categoria de notas, tão cara à crítica tradicional. 

ESGOTO HIPER-REALISTA

O enredo é banal. Divine (1945-1988 – a “musa” de Waters, uma drag queen que, no filme, está de maquiagem pesada à la Bozo) ganha da imprensa sensacionalista local o título de “a pessoa mais asquerosa do mundo”. Só que o casal Connie e Raymond Marbles (Mink Stole e David Lochary) quer a todo custo tirar de Divine esse título. 

E aí o filme desfila numa sequência de bizarrices e perversões, como se fosse dada a largada a uma espécie de campeonato de baixarias na pequena Baltimore dos anos 1970.

Os personagens são rasos, caricatos, unidimensionais, mas são incrivelmente carismáticos. Os enquadramentos são aleatórios. A fotografia é ruim. A mise-en-scène praticamente não existe. O estilo é tão despojado e solto, que a gente tem sérias dúvidas se os “atores” estão encenando ou sendo, na real, eles mesmos.

As cenas escatológicas são feitas realmente, o que mais impressiona. E nelas tudo cabe: zoofilia, “incesto”, coprofagia, voyeurismo, etc. Há um quê de amadorismo e nonsense nessa película, que aumenta o realismo. Waters hiper-realiza o esgoto. Pink Flamingos está totalmente empenhado que você saia no meio do filme ou muito antes disso.

UM CLÁSSICO IMPROVÁVEL

É possível que Waters não esperasse o sucesso que Pink Flamingos fez, tornando-se de imediato em um clássico improvável. 

Talvez, ao tentar devassar a alma humana – e realizar uma crítica agressiva contra uma sociedade falida, ridicularizando instituições como a polícia e a imprensa, bem como a ilusão da fama –, Waters acabou inventando personagens torpes, mas, de certa maneira, simpáticos para o público.

É certo que o potencial de chocar os atuais espectadores talvez possa ter diminuído nesse quase meio século de existência, não tendo o mesmo poder de tiro que à época do seu lançamento. O simples fato de ter se tornado objeto de culto entre cinéfilos domesticou a sua transgressão. 

A irreverência em subverter o cinema fez de Pink Flamingos um trash movie memorável e exemplar, tornando-se numa espécie de paradigma, de clássico, de “cânone”, absorvido que foi pela sétima arte.

É aí que mora o perigo em avaliar esse “antifilme”. Sim, eu chamo de “antifilme” porque há um esforço consciente de ir contra tudo o que era consagrado e identificável como “cinemão” na época. Só não abdica, à primeira vista, do filme enquanto história – há pelo menos um roteiro, um enredo esboçado linearmente.

Só que o tempo – e o sucesso – fez com que ele deixasse de ser “antifilme” ou “anticinema” e tornou-se derivado daquilo que tanto subverteu e pretendeu distanciar: o aluno rebelde virou professor.

É difícil explicar a repulsa e a atração simultâneas ao assistir esse filme. Talvez porque, no fundo, todo ser humano tem algo de podre, e isso o filme chega a tocar diretamente. Se na concepção “romântica”, a arte é a perseguição do “belo”, a arte em Pink Flamingos é a perseguição do “bizarro”, do “grotesco”, do “ridículo”.

POLITICAMENTE INCORRETO

Enxergá-lo apenas como um cult do underground norte-americano, um ícone da Contracultura ou até mesmo uma espécie de “filho tardio” do movimento hippie e da pop art, é vê-lo tão-somente como um acontecimento – datado e local. 

Ora, se estamos ainda falando dele, depois de tanto tempo, no Brasil do século XXI, é porque Pink Flamingos, sustentado por um carisma muito próprio, resiste e continua resistindo.

Pink Flamingos resiste contra tudo e contra todos, atirando na cara do “bom gosto” projéteis de grosso calibre, projéteis esses em que a vulgaridade e a criatividade – antes inimigas, opostas e imiscíveis – se casam com uma justeza e uma inteligência absurdas.

Feliz Natal!

PINK FLAMINGOS
(idem)
DIREÇÃO John Waters
ELENCO Divine, David Lochary, Mink Stole, Mary Vivian Pearce e Edith Massey
PRODUÇÃO (EUA, 1972, 93 min.)
AVALIAÇÃO: N/A

domingo, 11 de dezembro de 2016

Êxodo: Deuses e Reis (2014)

O filme de Ridley Scott é uma releitura – um tanto “mundana”, digamos – da libertação dos israelitas do jugo egípcio e sua saída para a Terra Prometida, a partir do texto bíblico.

Scott traz algumas liberdades interpretativas na maneira de contar a história, que diminuem o natural pendor ao espetáculo presente no material clássico.

Isso não é de todo ruim. No filme, Deus surge como um moleque chato e caprichoso, e não temos certeza se ele é real ou projeção da mente perturbada de Moisés (Bale).

Sem contar que Moisés no filme surge como uma espécie de prototerrorista, e tenta-se jogar uma semelhança – pálida, diga-se – entre ele e o Estado Islâmico. 

Mas há um maior interesse em retratar o crescimento espiritual de Moisés. No começo, ele é um cético, descrente das coisas da religião. Depois, ele se torna realmente no libertador de seu povo. No entanto, após a libertação propriamente dita, o que vemos é um Moisés que não sabe a mínima agora do que fazer.

Titubeante, indeciso, apenas seguindo uma voz que ninguém mais ouve, Moisés não está nem de longe parecido com o “líder saído do nada” que várias adaptações bíblicas consagraram no senso comum.

O começo é arrastado. Da metade em diante, o filme assume seu lado blockbuster e começa a apostar na ação.

Scott não se posiciona como um diretor reverente, isso na perspectiva religiosa. Em suas mãos, a conhecida história se torna uma espécie de metáfora ambiental, de fábula sobre escravidão e liberdade, sobre a tensão entre justiça e misericórdia.

O problema maior, neste filme, é que Ridley Scott não quis radicalizar as suas escolhas. O filme não assume se vai jogar no time do fantástico, do maravilhoso – que é isso que geralmente a própria Bíblia, enquanto história de personagens, possui – ou se joga no time do realismo mais quadradinho.

É mais fácil – em matéria de narrativa e verossimilhança – acreditar que o êxodo israelita se deveu mais aos milagres do que a fenômenos naturais orquestrados de uma maneira tão justa, inusitada e veloz.

O fã de épicos bíblicos verá a grandiosidade típica, mas ele sentirá que algo está faltando.

ÊXODO: DEUSES E REIS
(Exodus: Gods and Kings)
DIREÇÃO Ridley Scott
ELENCO Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Kingsley e Sigourney Weaver
PRODUÇÃO (EUA/Reino Unido/Espanha, 2014, 150 min.)
AVALIAÇÃO (bom)

domingo, 27 de novembro de 2016

O Código Da Vinci (2006)

Uma notinha rápida. Vamos falar de filme velho?

É praticamente impossível que haja alguém que ainda não tenha assistido O Código da Vinci, filme que, juntamente com o livro, tornou-se numa verdadeira coqueluche há dez anos.

Rever o filme hoje talvez não revele novos detalhes, mas reafirma sua força como entretenimento, como um filme realmente impressionante para o público que gosta de ação... e de algumas ideias mirabolantes para deixar qualquer um com a pulga atrás da orelha.

A obra que levou Dan Brown para as paradas literárias do sucesso, nada mais é que uma colcha de retalhos esquizofrênicos de teorias conspiratórias, arte e religião, mediada por uma envolvente – e nada muito original – história de suspense.

Um assassinato no Museu do Louvre envolve o simbologista Robert Langdon (Tom Hanks). Com a ajuda da bela criptógrafa francesa Sophie Neveu (Audrey Tautou), e fugindo do implacável investigador da Polícia Francesa, o capitão Bezu Fache (Reno), Langdon precisa provar a inocência e descobrir o assassino, mas acaba se envolvendo com uma sociedade secreta que guarda há séculos um segredo, e uma sinistra conspiração disposta a revelá-lo ao mundo.

A política do filme é simples. Como narrativa, é eficaz, embora, nada genial. O “diferencial” da história é, evidentemente, as questões e teorias que ele levanta – que, se não são verdade, pelo menos são muito bem inventadas, são muito verossímeis.

Recorde de bilheteria, sofrendo inclusive um inócuo boicote da Igreja, O Código da Vinci é a aventura mais popular do simbologista Robert Langdon. O sucesso foi tão acachapante, que os livros e filmes que vieram depois soaram como variações do mesmo tema, usos diferentes de uma mesma fórmula.

Recentemente, estreou Inferno, a terceira adaptação das aventuras de Langdon para a tela grande. Curiosamente, Inferno é o quarto livro protagonizado pelo famoso simbologista de Harvard. A história Símbolo Perdido, que seria o sucessor "natural", foi deixado de lado. Vai entender quais foram as razões de Hollywood.

O CÓDIGO DA VINCI
(The Da Vinci Code)
DIREÇÃO Ron Howard 
ELENCO Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno e Paul Bettany
PRODUÇÃO (EUA/Malta/França/Reino Unido, 2006, 149 min.)
AVALIAÇÃO (muito bom)

domingo, 9 de outubro de 2016

Fim dos Dias (1999)

Para os nascidos no século XX, o ano 2000 significava o “fim do mundo”. Muitos tinham isso como coisa certeira, uma conclusão óbvia e inescapável. As explicações eram muitas e desencontradas. Nostradamus (1503-1566) fixava o término da humanidade um pouco antes, em 1999. Os cientistas alardeavam sobre o “bug do Milênio”. 

É, pois, tirando partido desses dias tão recheados de paranoias e crises religiosas que Hollywood lançou o oportunista “Fim dos Dias” – autoexplicativo até no título.

O filme estrelado por Schwarzenegger é um misto de “terror”, ação e suspense. Pelo que parece, nos filmes de “terror” – com aspas mesmo – o Capeta sempre tem uma queda por aparições sensacionalistas. E isso confere ao “Fim dos Dias” algo de humor involuntário.

Schwarzenegger não está nem um pouco confortável no papel. Aliás, o velho Arnold em nada avançou além do seu icônico Exterminador – um personagem feito sob medida, diga-se. Acostumado a fazer tipos físicos e inexpressivos, ele pena em conferir profundidade ao personagem: Jericho Cane, um ex-policial em crise com a própria fé.

E olha que "Fim dos Dias" tinha a missão de resgatar a figura do Schwarzenegger, depois do sofrível Batman e Robin [Joel Schumacher, 1997].

Aliás, falando de filme ruim, em várias listas de piores filmes estrelados pelo ator austríaco, "Fim dos Dias" tem presença cativa, embora não se possa condená-lo totalmente.

A trama é simples. Jericho deverá proteger Christine York (a bela Robin Tunney) do Diabo (Byrne), que veio à Terra para buscá-la. Isso porque, às vésperas dos finais dos tempos, nascerá uma menina que se tornará a mulher do Diabo; e de semelhante modo, haverá um predestinado também para servir-lhe de corpo.

As interpretações “religiosas” que dão a lógica do filme são rasas e toscas, para se dizer o mínimo. A trama é mera desculpa para preencher os minutos do filme com efeitos especiais, explosões e perseguições.

Até que nisso ele se saiu bem. A ação e os efeitos especiais são conduzidos com competência. O roteiro é eficiente em conferir suspense e adrenalina, tornando-se em um entretenimento descompromissado para se ver na TV num domingo à noite, por exemplo.

FIM DOS DIAS
(End of Days)
DIREÇÃO Peter Hyams
ELENCO  Arnold Schwarzenegger, Gabriel Byrne, Robin Tunney, Kevin Pollak e Udo Kier.
PRODUÇÃO (EUA, 1999, 121 min.)
AVALIAÇÃO (regular)