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Nada a Perder (2018), parte II

PARTE II:  O mito e seus arranhões
Os problemas do filme são intrínsecos à sua natureza – é um filme encomendado, feito para “fazer coro” ao “discurso oficial” da igreja. Por isso, a atmosfera laudatória do longa.
O contraditório é praticamente eliminado. O filme é a visão que o Macedo tem de si próprio, com alguns lapsos de modéstia, sinceridade e autocrítica.

Obviamente, Nada a Perder é uma biografia chapa-branca. Ou melhor: uma esforçada hagiografia. Feita para convertidos.
Há alguns pontos positivos que merecem ser frisados. A caracterização da época, os cenários são muito bons, verossímeis. Petrônio Gontijo, no papel do protagonista, se esforça, até que se saiu bem, afinal, o bispo é uma figura que corre o risco de cair no caricato. O ator convence com a personalidade impulsiva, teimosa e carismática do líder religioso.
Mas há certos problemas que incomodam. Os saltos temporais são deficientes: de 1962 para 1971, o personagem envelheceu uns 30 anos. O roteiro deixa a desejar: diálo…
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Nada a Perder (2018)

PARTE I: Apontamentos sobre o homem aquém do mito
E eis que Nada a Perder chega ao Netflix.
É sempre uma tarefa difícil falar de Edir Macedo, essa figura controversa. Parece que nunca seremos capazes de olhá-lo com isenção, sem cair nos estereótipos de “homem de Deus” ou de “mercador da fé”, sem superar a devoção religiosa ou a figura que ficou no imaginário popular.
Porque o nome dele faz um verdadeiro contorcionismo entre a defesa acrítica de seus seguidores e o forte preconceito de seus detratores.
Muita tinta se gastou falando nele, quer seja na imprensa, quer nos processos judiciais, nas teses acadêmicas, nas redes sociais ou no caudaloso material que sua instituição, dia após dia, produz.
Mas, afinal, quem é ele?
Assistimos ao filme, vemos a sua humanidade sendo deformada pelas lentes grossas da mitificação. Talvez nunca saibamos quem seja esse carioca radicado nos EUA – sempre oculto atrás de camadas e camadas de discurso oficial e aura religiosa.
Olha só que interessante parad…

Calígula (1979)

A minha geração cresceu ouvindo muito falar de Calígula. Como se o mundo fosse dividido entre as pessoas que tivessem visto o filme e aquelas que ainda não viram. Calígula, por todos esses anos, tomou para mim proporções realmente folclóricas, virando uma espécie de proibidão clássico, algo como uma experiência extrema em matéria de cinefilia.

No entanto, hoje, vendo-o pela primeira vez, percebo que toda essa sensação que ainda existe em torno dele pouco ou nada se sustenta diante dos seus 156 minutos.
Para começar, é difícil saber do que se trata o filme. Se um pornô sofisticado ou épico de realismo chocante. Esse Ben-Hurda putaria é um ambicioso exercício de subversão, cujo poder de novidade se perde já nos seus primeiros minutos.
Um filme de época com cenas de sexo explícito, ou cenas de sexo explícito entremeadas por falas e situações, se você preferir.
A câmera burocrática insiste nos planos afastados, mostrando uma opulência fake de estúdio, uma teatralidade distante e vazia. O…

Frankenweenie (2012)

É um filme bobo, mas... bonito.
E é esta a sua principal qualidade.
Talvez estejamos muito necessitados de algo assim nos dias de hoje: uma experiência cinematográfica que seja mais “plástica” que “política”.
A história do estranho garoto nerd e solitário que quer ressuscitar o seu cãozinho é de um apelo universal indiscutível. O drama é palpável; nos identificamos de imediato.
Talvez, no fim, a mensagem que se depreende do filme é o tipo de consequência que se pode ter ao trazer os mortos de volta à vida... Ou o poder do amor, que é muito a cara da Disney...
Mas não, não quero problematizar.
O delicado stop-motion em branco e preto vale apenas por aquilo que é – um entretenimento prazeroso como um parque de diversões em um dia ensolarado de férias. Sem fins nem teses, sem metáforas ocultas, sem links mentais ou fetichismos políticos.
Exceto servir de gatilho à nostalgia pura e simples, à memória afetiva de todos que cresceram consumindo imagens e mundos da cultura pop. A homenagem “…

Paulo e Estêvão (1941)

A maior injustiça é rotular Paulo e Estêvão de "romance espírita"

Chico Xavier — ou Emmanuel — é realmente um escritor extraordinário. Tudo bem que o livro é escrito com mão pesadíssima, com um beletrismo que torna a prosa muito envelhecida e gordurosa.
"Outrossim", "assaz", "báratro" e "imbele" foram algumas das centenas de palavras que me obrigaram peregrinar em diversos dicionários pesadões.
A dicção arcaizante e dura surpreendeu muitas vezes com momentos de poesia e luminosidade.
O texto funcionaria melhor se eliminasse boa parte dos adjetivos, dos advérbios, das palavras pomposas, se cortasse muitas repetições. Já entendi que muitos choram, que a Igreja Primitiva trabalha com amor, que muitos ficam "vivamente impressionados" quando Paulo prega, etc., etc.
O Apóstolo Paulo que encontro neste livro é o mesmo que sempre imaginei nas leituras bíblicas da adolescência — um pensador rigoroso, de uma franqueza quase rude, um ra…

Kingsman – Serviço Secreto (2014)

Cinema é imagem, mas também é movimento. Essa definição praticamente tautológica da sétima arte me martelou a mente do começo ao fim do deste filme.
Aliás, movimento é algo que também está presente nos filmes “parados”, contemplativos, não-narrativos. O que mais se nota em Kingsman é ritmo.
A trama é ágil, é divertida. A direção hiperacelerada e nervosa de Vaughn não deixa espaço para o tédio. Tudo acontece de acordo, cada coisa acontece no momento certo, cada cena, cada piada, tudo muito orgânico e fluído. As alternâncias entre diálogos e cenas de ação, ainda que bruscas, formam por si só um deleite sensacional.
O filme extrapola a “elegante” comicidade existente nos primeiros filmes do 007. Para os nostálgicos, Kingsman funciona como um exagero respeitoso daquela componente que o Bond de Craig procura – sistematicamente – abdicar. O humor.
Kingsman vai além. Reverencia Bond com total irreverência, sacaneia o mito reconhecendo – e reafirmando – seu gigantismo incontornável na cultur…

Pink Flamingos (1972)

Destoando completamente do espírito natalino, eis aí um filme irreverente de avaliação impossível.
Confesso que assistir até o final esse “exercício do mau gosto” foi como testar os próprios limites. Sim, porque Pink Flamingos, de John Waters, não é um filme para qualquer um. É talvez um dos filmes mais bizarros e repulsivos que já vi na vida. Mais até que Possessão (1981).
Tudo nele é tosco, chulo e precário. Tão tosco e nauseabundo que chega a ser engraçado, pastelão à sua maneira. Um circo escatológico.
E é um filme que zomba dos padrões e critérios, daí sendo difícil enquadrá-lo numa categoria de notas, tão cara à crítica tradicional. 
ESGOTO HIPER-REALISTA
O enredo é banal. Divine (1945-1988 – a “musa” de Waters, uma drag queen que, no filme, está de maquiagem pesada à la Bozo) ganha da imprensa sensacionalista local o título de “a pessoa mais asquerosa do mundo”. Só que o casal Connie e Raymond Marbles (Mink Stole e David Lochary) quer a todo custo tirar de Divine esse título.