sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Kingsman – Serviço Secreto (2014)

Cinema é imagem, mas também é movimento. Essa definição praticamente tautológica da sétima arte me martelou a mente do começo ao fim do deste filme.

Aliás, movimento é algo que também está presente nos filmes “parados”, contemplativos, não-narrativos. O que mais se nota em Kingsman é ritmo.

A trama é ágil, é divertida. A direção hiperacelerada e nervosa de Vaughn não deixa espaço para o tédio. Tudo acontece de acordo, cada coisa acontece no momento certo, cada cena, cada piada, tudo muito orgânico e fluído. As alternâncias entre diálogos e cenas de ação, ainda que bruscas, formam por si só um deleite sensacional.

O filme extrapola a “elegante” comicidade existente nos primeiros filmes do 007. Para os nostálgicos, Kingsman funciona como um exagero respeitoso daquela componente que o Bond de Craig procura – sistematicamente – abdicar. O humor.

Kingsman vai além. Reverencia Bond com total irreverência, sacaneia o mito reconhecendo – e reafirmando – seu gigantismo incontornável na cultura pop. Não esconde a tietagem, faz isso com competência, mesmo não se levando a sério momento algum.

Kingsman é entretenimento estiloso feito com toque de gênio e frescor, é cinema pipoca de altíssimo nível, por mais que essas afirmações pareçam absurdas.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Pink Flamingos (1972)

Destoando completamente do espírito natalino, eis aí um filme irreverente de avaliação impossível.

Confesso que assistir até o final esse “exercício do mau gosto” foi como testar os próprios limites. Sim, porque Pink Flamingos, de John Waters, não é um filme para qualquer um. É talvez um dos filmes mais bizarros e repulsivos que já vi na vida. Mais até que Possessão (1981).

Tudo nele é tosco, chulo e precário. Tão tosco e nauseabundo que chega a ser engraçado, pastelão à sua maneira. Um circo escatológico.

E é um filme que zomba dos padrões e critérios, daí sendo difícil enquadrá-lo numa categoria de notas, tão cara à crítica tradicional. 

ESGOTO HIPER-REALISTA

O enredo é banal. Divine (1945-1988 – a “musa” de Waters, uma drag queen que, no filme, está de maquiagem pesada à la Bozo) ganha da imprensa sensacionalista local o título de “a pessoa mais asquerosa do mundo”. Só que o casal Connie e Raymond Marbles (Mink Stole e David Lochary) quer a todo custo tirar de Divine esse título. 

E aí o filme desfila numa sequência de bizarrices e perversões, como se fosse dada a largada a uma espécie de campeonato de baixarias na pequena Baltimore dos anos 1970.

Os personagens são rasos, caricatos, unidimensionais, mas são incrivelmente carismáticos. Os enquadramentos são aleatórios. A fotografia é ruim. A mise-en-scène praticamente não existe. O estilo é tão despojado e solto, que a gente tem sérias dúvidas se os “atores” estão encenando ou sendo, na real, eles mesmos.

As cenas escatológicas são feitas realmente, o que mais impressiona. E nelas tudo cabe: zoofilia, “incesto”, coprofagia, voyeurismo, etc. Há um quê de amadorismo e nonsense nessa película, que aumenta o realismo. Waters hiper-realiza o esgoto. Pink Flamingos está totalmente empenhado que você saia no meio do filme ou muito antes disso.

UM CLÁSSICO IMPROVÁVEL

É possível que Waters não esperasse o sucesso que Pink Flamingos fez, tornando-se de imediato em um clássico improvável. 

Talvez, ao tentar devassar a alma humana – e realizar uma crítica agressiva contra uma sociedade falida, ridicularizando instituições como a polícia e a imprensa, bem como a ilusão da fama –, Waters acabou inventando personagens torpes, mas, de certa maneira, simpáticos para o público.

É certo que o potencial de chocar os atuais espectadores talvez possa ter diminuído nesse quase meio século de existência, não tendo o mesmo poder de tiro que à época do seu lançamento. O simples fato de ter se tornado objeto de culto entre cinéfilos domesticou a sua transgressão. 

A irreverência em subverter o cinema fez de Pink Flamingos um trash movie memorável e exemplar, tornando-se numa espécie de paradigma, de clássico, de “cânone”, absorvido que foi pela sétima arte.

É aí que mora o perigo em avaliar esse “antifilme”. Sim, eu chamo de “antifilme” porque há um esforço consciente de ir contra tudo o que era consagrado e identificável como “cinemão” na época. Só não abdica, à primeira vista, do filme enquanto história – há pelo menos um roteiro, um enredo esboçado linearmente.

Só que o tempo – e o sucesso – fez com que ele deixasse de ser “antifilme” ou “anticinema” e tornou-se derivado daquilo que tanto subverteu e pretendeu distanciar: o aluno rebelde virou professor.

É difícil explicar a repulsa e a atração simultâneas ao assistir esse filme. Talvez porque, no fundo, todo ser humano tem algo de podre, e isso o filme chega a tocar diretamente. Se na concepção “romântica”, a arte é a perseguição do “belo”, a arte em Pink Flamingos é a perseguição do “bizarro”, do “grotesco”, do “ridículo”.

POLITICAMENTE INCORRETO

Enxergá-lo apenas como um cult do underground norte-americano, um ícone da Contracultura ou até mesmo uma espécie de “filho tardio” do movimento hippie e da pop art, é vê-lo tão-somente como um acontecimento – datado e local. 

Ora, se estamos ainda falando dele, depois de tanto tempo, no Brasil do século XXI, é porque Pink Flamingos, sustentado por um carisma muito próprio, resiste e continua resistindo.

Pink Flamingos resiste contra tudo e contra todos, atirando na cara do “bom gosto” projéteis de grosso calibre, projéteis esses em que a vulgaridade e a criatividade – antes inimigas, opostas e imiscíveis – se casam com uma justeza e uma inteligência absurdas.

Feliz Natal!

PINK FLAMINGOS
(idem)
DIREÇÃO John Waters
ELENCO Divine, David Lochary, Mink Stole, Mary Vivian Pearce e Edith Massey
PRODUÇÃO (EUA, 1972, 93 min.)
AVALIAÇÃO: N/A

domingo, 11 de dezembro de 2016

Êxodo: Deuses e Reis (2014)

O filme de Ridley Scott é uma releitura – um tanto “mundana”, digamos – da libertação dos israelitas do jugo egípcio e sua saída para a Terra Prometida, a partir do texto bíblico.

Scott traz algumas liberdades interpretativas na maneira de contar a história, que diminuem o natural pendor ao espetáculo presente no material clássico.

Isso não é de todo ruim. No filme, Deus surge como um moleque chato e caprichoso, e não temos certeza se ele é real ou projeção da mente perturbada de Moisés (Bale).

Sem contar que Moisés no filme surge como uma espécie de prototerrorista, e tenta-se jogar uma semelhança – pálida, diga-se – entre ele e o Estado Islâmico. 

Mas há um maior interesse em retratar o crescimento espiritual de Moisés. No começo, ele é um cético, descrente das coisas da religião. Depois, ele se torna realmente no libertador de seu povo. No entanto, após a libertação propriamente dita, o que vemos é um Moisés que não sabe a mínima agora do que fazer.

Titubeante, indeciso, apenas seguindo uma voz que ninguém mais ouve, Moisés não está nem de longe parecido com o “líder saído do nada” que várias adaptações bíblicas consagraram no senso comum.

O começo é arrastado. Da metade em diante, o filme assume seu lado blockbuster e começa a apostar na ação.

Scott não se posiciona como um diretor reverente, isso na perspectiva religiosa. Em suas mãos, a conhecida história se torna uma espécie de metáfora ambiental, de fábula sobre escravidão e liberdade, sobre a tensão entre justiça e misericórdia.

O problema maior, neste filme, é que Ridley Scott não quis radicalizar as suas escolhas. O filme não assume se vai jogar no time do fantástico, do maravilhoso – que é isso que geralmente a própria Bíblia, enquanto história de personagens, possui – ou se joga no time do realismo mais quadradinho.

É mais fácil – em matéria de narrativa e verossimilhança – acreditar que o êxodo israelita se deveu mais aos milagres do que a fenômenos naturais orquestrados de uma maneira tão justa, inusitada e veloz.

O fã de épicos bíblicos verá a grandiosidade típica, mas ele sentirá que algo está faltando.

ÊXODO: DEUSES E REIS
(Exodus: Gods and Kings)
DIREÇÃO Ridley Scott
ELENCO Christian Bale, Joel Edgerton, John Turturro, Ben Kingsley e Sigourney Weaver
PRODUÇÃO (EUA/Reino Unido/Espanha, 2014, 150 min.)
AVALIAÇÃO (bom)

domingo, 27 de novembro de 2016

O Código Da Vinci (2006)

Uma notinha rápida. Vamos falar de filme velho?

É praticamente impossível que haja alguém que ainda não tenha assistido O Código da Vinci, filme que, juntamente com o livro, tornou-se numa verdadeira coqueluche há dez anos.

Rever o filme hoje talvez não revele novos detalhes, mas reafirma sua força como entretenimento, como um filme realmente impressionante para o público que gosta de ação... e de algumas ideias mirabolantes para deixar qualquer um com a pulga atrás da orelha.

A obra que levou Dan Brown para as paradas literárias do sucesso, nada mais é que uma colcha de retalhos esquizofrênicos de teorias conspiratórias, arte e religião, mediada por uma envolvente – e nada muito original – história de suspense.

Um assassinato no Museu do Louvre envolve o simbologista Robert Langdon (Tom Hanks). Com a ajuda da bela criptógrafa francesa Sophie Neveu (Audrey Tautou), e fugindo do implacável investigador da Polícia Francesa, o capitão Bezu Fache (Reno), Langdon precisa provar a inocência e descobrir o assassino, mas acaba se envolvendo com uma sociedade secreta que guarda há séculos um segredo, e uma sinistra conspiração disposta a revelá-lo ao mundo.

A política do filme é simples. Como narrativa, é eficaz, embora, nada genial. O “diferencial” da história é, evidentemente, as questões e teorias que ele levanta – que, se não são verdade, pelo menos são muito bem inventadas, são muito verossímeis.

Recorde de bilheteria, sofrendo inclusive um inócuo boicote da Igreja, O Código da Vinci é a aventura mais popular do simbologista Robert Langdon. O sucesso foi tão acachapante, que os livros e filmes que vieram depois soaram como variações do mesmo tema, usos diferentes de uma mesma fórmula.

Recentemente, estreou Inferno, a terceira adaptação das aventuras de Langdon para a tela grande. Curiosamente, Inferno é o quarto livro protagonizado pelo famoso simbologista de Harvard. A história Símbolo Perdido, que seria o sucessor "natural", foi deixado de lado. Vai entender quais foram as razões de Hollywood.

O CÓDIGO DA VINCI
(The Da Vinci Code)
DIREÇÃO Ron Howard 
ELENCO Tom Hanks, Audrey Tautou, Ian McKellen, Jean Reno e Paul Bettany
PRODUÇÃO (EUA/Malta/França/Reino Unido, 2006, 149 min.)
AVALIAÇÃO (muito bom)

domingo, 9 de outubro de 2016

Fim dos Dias (1999)

Para os nascidos no século XX, o ano 2000 significava o “fim do mundo”. Muitos tinham isso como coisa certeira, uma conclusão óbvia e inescapável. As explicações eram muitas e desencontradas. Nostradamus (1503-1566) fixava o término da humanidade um pouco antes, em 1999. Os cientistas alardeavam sobre o “bug do Milênio”. 

É, pois, tirando partido desses dias tão recheados de paranoias e crises religiosas que Hollywood lançou o oportunista “Fim dos Dias” – autoexplicativo até no título.

O filme estrelado por Schwarzenegger é um misto de “terror”, ação e suspense. Pelo que parece, nos filmes de “terror” – com aspas mesmo – o Capeta sempre tem uma queda por aparições sensacionalistas. E isso confere ao “Fim dos Dias” algo de humor involuntário.

Schwarzenegger não está nem um pouco confortável no papel. Aliás, o velho Arnold em nada avançou além do seu icônico Exterminador – um personagem feito sob medida, diga-se. Acostumado a fazer tipos físicos e inexpressivos, ele pena em conferir profundidade ao personagem: Jericho Cane, um ex-policial em crise com a própria fé.

E olha que "Fim dos Dias" tinha a missão de resgatar a figura do Schwarzenegger, depois do sofrível Batman e Robin [Joel Schumacher, 1997].

Aliás, falando de filme ruim, em várias listas de piores filmes estrelados pelo ator austríaco, "Fim dos Dias" tem presença cativa, embora não se possa condená-lo totalmente.

A trama é simples. Jericho deverá proteger Christine York (a bela Robin Tunney) do Diabo (Byrne), que veio à Terra para buscá-la. Isso porque, às vésperas dos finais dos tempos, nascerá uma menina que se tornará a mulher do Diabo; e de semelhante modo, haverá um predestinado também para servir-lhe de corpo.

As interpretações “religiosas” que dão a lógica do filme são rasas e toscas, para se dizer o mínimo. A trama é mera desculpa para preencher os minutos do filme com efeitos especiais, explosões e perseguições.

Até que nisso ele se saiu bem. A ação e os efeitos especiais são conduzidos com competência. O roteiro é eficiente em conferir suspense e adrenalina, tornando-se em um entretenimento descompromissado para se ver na TV num domingo à noite, por exemplo.

FIM DOS DIAS
(End of Days)
DIREÇÃO Peter Hyams
ELENCO  Arnold Schwarzenegger, Gabriel Byrne, Robin Tunney, Kevin Pollak e Udo Kier.
PRODUÇÃO (EUA, 1999, 121 min.)
AVALIAÇÃO (regular)

domingo, 28 de agosto de 2016

Esquadrão Suicida (2016)

Se de uns tempos para cá, a DC/Warner está procurando seu grande filme, esse com certeza não é Esquadrão Suicida. Uma pena, visto que o filme até possui a sua graça, o seu charme particular.

Longe de ser uma obra perfeita, ES é divertido. Acerta no tom, tem um ritmo sensacional. Mas erra feio na trama, no enredo. A começar que muitos personagens não são desenvolvidos como convêm — agredindo a premissa contida no título. É realmente difícil entender que um filme seja intitulado com a palavra "esquadrão" mas toma partido de alguns integrantes apenas. A história se simpatiza rápido com a Arlequina (Robbie) e o Pistoleiro (Smith), relegando os outros componentes da trupe à condição de amorfos figurantes.

O roteiro foi finalizado às pressas, e a montagem também. Os fãs reclamaram, e com razão: várias das cenas mostradas no trailer sequer aparecem. Muitos desses "reajustes" de última hora ocorreram motivados pelo sucesso estrondoso de Deadpool [Tim Miller, 2016], lançado quando ES estava em etapa de finalização. A sombra de Deadpool, aliás, é grande demais em Esquadrão Suicida. Os efeitos das pesadas críticas em cima de Batman vs. Superman — principalmente pela sisudez sufocante — também se fazem sentir. Nesse instante, acredito que na cabeça dos produtores ressoou a profética e sinistra pergunta do sensacional Coringa de Ledger: "why so serious?". Por que ser tão sério, se o público quer humor?

E já que falamos nele, Coringa (Leto) está horrível em praticamente todas as cenas, mesmo aparecendo tão pouco. O personagem mais presente nos materiais de divulgação do filme tem uma participação pífia, apagada. É certo que ele é o personagem, digamos, desestabilizador do universo Batman, uma espécie de agente do caos. No entanto, todas as vezes que o Coringa surge é para desestabilizar a trama — no sentido péssimo da palavra. Sua presença pouco se justifica. Sem contar que sua caracterização afetada, cheia de maneirices, está mais para Chapeleiro Maluco que para o Coringa.

Os vilões são melosos, têm sonhos quadrados, conservadores. Talvez se trabalhado com mão competente, essa característica daria ótimo caldo para fazer humor.

Salta aos olhos o desempenho incrível de Viola Davis (no papel de Amanda Waller). Ela nos convence da chefa durona que não recua mesmo diante de monstros superpoderosos. E vale dizer que o desempenho de Robbie e Smith justifica o ingresso, eles defenderam bem seus personagens, acreditaram neles. Afinal, como já dissemos, são esses os personagens que mais aparecem, que foram melhor desenvolvidos — mesmo que suas falas sejam, em alguns momentos, desabonadoras.

O mesmo não ocorre com Magia (Delevingne), vilã patética e unidimensional, dona dos momentos mais constrangedores do longa. Sua motivação na trama é rasteira. Ela é, sem dúvida, o ponto frágil de todo filme enquanto história.

Meu comentário parece isolado entre os que assistiram, fãs ou espectadores casuais, mas senti alguns avanços nos filmes da DC. É claro que algumas indefinições prejudicam. 

A comparação é inevitável. ES e BvS têm similaridades, principalmente o descompasso entre forma e conteúdo. ES ganha em matéria de ritmo, leveza e humor. Possui uniformidade, apesar de tantos cortes secos e bruscos, apesar da montagem caótica. ES se aproxima mais do modelo ideal de filmes de super-heróis forjado pela Marvel, guardadas, evidentemente, as devidas proporções e a colossal distância. A DC está corrigindo rota justamente para isso.

Infelizmente, não foi desta vez que vimos aquele filme tão aguardado da DC. Só nos resta esperar o próximo e torcer para que os estúdios finalmente consigam acertar a mão.

ESQUADRÃO SUICIDA
(Suicide Squaid)
DIREÇÃO David Ayer 
ELENCO Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Viola Davis e Cara Delevingne
PRODUÇÃO (EUA, 2016, 123 min.)
AVALIAÇÃO (bom)

domingo, 14 de agosto de 2016

Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (2016)

Pois é, a minha recepção ao controvertido Batman vs Superman até que foi favorável. Acredito que isso ocorreu porque não vi o trailer, porque vi o filme bem depois da estreia, e ainda no conforto do home-video. Em outras palavras, meu contato com o filme foi casual, sem as grandes expectativas de fã.

O filme tem seus problemas, é claro. Mas na total conjuntura, eles não prejudicam as premissas básicas do filme, enquanto uma obra cinematográfica de fantasia: a magia e a diversão.

Após fazer uma ligeira observação nos números dos últimos grandes sucessos de bilheteria, é possível afirmar que nunca, na história do cinema mundial, se assistiu tantos e tantos filmes de super-heróis. Até bem recentemente, inclusive, os críticos e boa parte dos cinéfilos desprezavam o gênero, tachando seus filmes de fantasias comerciais na pior concepção da palavra. Isso, de certa forma, começou a mudar quando a Marvel começou a bagunçar o nicho das “adaptações de quadrinhos para a tela grande”, fazendo obras leves e divertidas, ganhando os aplausos do público e da crítica especializada... e conquistando os corações de uma galera não-consumidora de revistas e gibis.

Era de se esperar uma reação à altura da poderosa concorrente, a DC Comics, propriedade dos estúdios Warner. E nela se repousavam também pesadas expectativas. Há alguns anos, a DC está à procura de uma fórmula, de um estilo, que não só deixe sua marca registrada na concorrida indústria de filmes de heróis, como também lhe garanta expressivo sucesso comercial. É por isso que todo lançamento da DC traz consigo uma promessa, e com ela, ansiedades, frustrações e muita polêmica no boca-a-boca.

Foi o que aconteceu com BvS. E não só. O filme também não deveria apenas manter diálogo – e continuidade – com as duas principais sagas da DC, Batman e Superman, mas preparar terreno para duas outras séries futuras: Mulher Maravilha e Liga da Justiça, previstos para 2017.

É por isso que o filme tem essa cara de “filme do meio”: ele começa, e parece que muita coisa já aconteceu, e termina cheio de pontas soltas. 

ESTILO GORDUROSO

A história é boa. E tem ótimos personagens. O roteiro tem força, tem voltas e reviravoltas, mas é prejudicado por certas deficiências, como o andamento claudicante e saltos de ritmo. Mas o maior problema é a mão pesada do diretor, Zack Snyder, famoso por trabalhos em que a forma exuberante sempre esconde um conteúdo irregular. Em BvS, a introdução é longa, detalhista e maçante. A segunda parte, focada nas cenas de ação, também parece se encompridar demais. O filme ganharia se houvesse maior poder de síntese, se tivesse uma hora a menos.

Snyder, a todo momento, quer provar que é um diretor talentoso, imaginativo, criativo. A gente percebe que ele é afeito à grandiloquência, ao excesso, ao épico kitsch. No começo, seu estilo gorduroso até impressiona, mas depois, chega a enfastiar. Câmera lenta usada sem parcimônia, muitos efeitos especiais, muita “poesia visual” desnecessária, trilha sonora excessiva, escandalosa, o mundo como sinônimo de Estados Unidos da América. Muita pirotecnia que lembra filmes de Michael Bay e Roland Emmerich.

Lex Luthor (Jesse Eisenberg) está engraçado. Ele é desprezível, passa bem a imagem do “mimadinho sem escrúpulos”. Porém, funciona mais como um alívio cômico do que um inimigo de porte. O típico “vilão-de-uma-tecla-só”: raso, caricato, cartunesco.

É interessante a caracterização do Superman (Henry Cavill) questionando-se, refletindo sobre o próprio poder e representatividade no mundo. Mas isso é atenuado, diluído, diante da insistência da história em colocá-lo nas cenas “fofas” e forçadas junto a Lois Lane (Amy Adams).

Dramaturgicamente, Ben Affleck é melhor que Christian Bale. Sua atuação é mais matizada, seus contornos psicológicos são mais complexos. É uma comparação perigosa, sem dúvida, até porque, em BvS, a concepção do Batman é outra. Aqui estamos diante de um Batman mais envelhecido, mais cínico, mais amargo, mais cansado e pessimista. Tornando-se, pois, o oposto ideológico de Superman, é interessante constatar a fragilidade / vulnerabilidade / impotência de Batman diante de monstros muito mais poderosos.

No final, a grande mensagem do filme é que nenhum alienígena, nenhum meta-humano é capaz de conter a quase infinita maldade humana. E que nessa luta desproporcional, é chegada a hora de heróis se unirem, debaixo de um mesmo guarda-chuva: a justiça.

Em resumo, BvS é um filme sério, solene, sisudo – até demais. Traz algumas questões e abordagens, mas não tem o alcance da ótima trilogia Nolan, que equilibrou bem filosofices com os cânones do cinema-pipoca. Vamos esperar se a DC acerta a mão na próxima vez.

BATMAN VS SUPERMAN: A ORIGEM DA JUSTIÇA
(Batman v Superman: Dawn of Justice)
DIREÇÃO Zack Snyder 
ELENCO Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg  e Diane Lane
PRODUÇÃO (EUA, 2016, 151 min.)
AVALIAÇÃO « (bom)